BLOG NOVO: CONTOS DO ICAL


domingo, 28 de setembro de 2014

Revelação - Hirtis Lazarin



Revelação
Hirtis Lazarin

 Meus avós vieram da Itália fugindo da guerra.  Aqui, no Brasil, estabeleceram-se numa fazenda de café.  Ao todo nasceram oito filhos.  Eu costumava ouvir que era costume dos italianos agricultores terem muitos filhos:  "quanto mais filho, mais mão-de-obra”.

 Todos se dedicaram ao cultivo da terra e, com muita garra e determinação, se deram bem na vida.  Alguns até se enriqueceram.

 Só o filho mais novo, Tomás, "a raspa do tacho", como agricultor foi uma negação.  De aparência franzina adoecia se tomasse sol, e se tomasse friagem adoecia também.  Mas o danadinho era esperto como ele só.  Na escola "dava um baile" na professora. Era questionador.  Queria sempre saber mais coisas que os outros.  Inteligente e provocativo.  Sua ligeireza e criatividade faziam tudo virar piada.  Senso de humor invejável.  Perto dele não se ficava triste.  Até meu nono, homem enérgico e de pouca conversa, não conseguia disfarçar o riso quando o talento de Tomás vinha à tona.  Chamavam-no de palhaço Kuxixo.

 Aos quinze anos foi ao circo pela primeira vez.  Ficou seduzido pelos palhaços.  Nesse dia descobriu o que queria ser pro resto da vida.  Enquanto o circo esteve na cidade, compareceu a todos os espetáculos.  Deslumbramento... É a palavra que definia o rapaz.  Até tentou fugir de casa  pra acompanhar o circo.  Foi pego em flagrante  levando apenas uma mochila nas costas.

Desde então, lia tudo quanto é livro, revista, reportagem sobre circo, palhaço, humor.

Beatriz, uma de suas cunhadas, foi sua única incentivadora.  Era inteligente, gostava de ler, de cantar e encantar  Os dois brincavam de criar e escrever textos engraçados a partir de um tema.  A coisa foi crescendo... crescendo... Os textos surgiam cada vez mais facilmente.  Colocados no papel, o material deu embasamento para um bom projeto de humor.

Sua primeira experiência como Kuxixo aconteceu no circo "BABALU".  Assim que assistiu aos vídeos postados no Youtube, o administrador deu-lhe a chance de algumas aparições no picadeiro.  Foi a confirmação que Tomás precisava.  Seu destino estava traçado.

Kuxixo montou um blog, atualizado semanalmente.  Bombou na Internet.  Começou, então, a receber convites para entrevistas na t.v.  Gente nova trazendo ideias novas.  Daí pra frente o sucesso explodiu.  Tomás e Beatriz, uma parceria pra valer.  As ideias floresciam, ela aprimorava-as no papel.  Seu esposo até foi picado pela mosca do ciúme, abatida rapidinho quando a conta bancária começou a crescer.

Sucesso, fama para o palhaço.  Dinheiro para os dois.

Algo implicava a família.  Kuxixo tinha fama, dinheiro, boa aparência, bom papo e nada de mulher.  Admirava muitas.  A sério, nenhuma.  Se alguém tocasse no assunto, saía de fininho deixando o interlocutor falando sozinho.


Certa feita Tomás sentiu-se muito mal após apresentação: dores abdominais fortes, queda de pressão, e desmaio.  Passou por check up completo e a notícia que recebeu foi alarmante.  Tumor maligno no pâncreas, já em estado bem avançado.  Não revelou a ninguém.


Por conta de férias merecidas, inventou uma viagem longa pro exterior.  Uma parada profissional pra reciclagem  Começou em São Paulo o tratamento adequado.  O organismo rejeitou a medicação.  A doença se espalhou ...Pouco tempo de vida lhe restava.


Magro e abatido voltou à casa dos pais.  Caiu na cama e não mais se levantou.  Deixou uma carta endereçada ao pai. Deveria ser aberta com toda família reunida.


A família estava abaladíssima.  Tudo foi rápido demais.  Uma tragédia.  Tristeza sem fim.  Tomás era jovem.  Um rapaz sempre atento com a saúde.  Não bebia nem fumava. Sempre soube se cuidar. Mas, a vida nos reserva alegrias e dores.


Reunidos numa tarde, o envelope foi aberto.  Dentro dele um testamento com dois itens apenas:

1
Nono parou a leitura por conta do silêncio pesado na sala.  Apenas o som de respiração profunda e ofegante, bocas de lábios cerrados e secos, testas enrugadas de apreensão, muitos... muitos... pontos de interrogação e de exclamação flutuando e se digladiando no ar.  Olhos arregalados e fixos nas mãos de quem lia.  Que ansiedade meu Deus!

2 - os outros 50% dos meus bens eu deixo ao grande amor da minha vida.  A mulher que nunca soube nem desconfiou de nada. E foi esse amor  platônico que me fez acreditar no meu sonho, acreditar no meu talento, ir à luta sem medo, enfrentar desafios, resistir a certos fracassos,  viver feliz.  Eu a amei todos os dias da minha vida, mas o fruto era proibido.  Por ela me anulei como homem.  Meu amor ficou guardado dentro da minha alma e dentro de um frasco de perfume igual ao que ela usava.  Estava onde eu estava.  Senti-lo era senti-la pertinho de mim.

Meu único amor foi você, Conceição
Minha musa, minha luz.
Cuide bem dela, Alè, meu irmão
sua esposa é raridade que reluz.

Já entardecia.  A sala ficou na penumbra.  Em segundos ficou vazia.  Um silêncio sepulcral.  O silêncio que os mortos merecem.


                                                                  

A menina que gostava de números - Jany Patricio


A menina que gostava de números
Jany Patricio

Naquela manhã o sol brilhava majestoso.

Gotículas tocavam as flores aveludadas. Minúsculos prismas que espargiam a luz solar, transformando a atmosfera num festival multicor.

Filetes d'água surgiam das rochas banhando a relva.

Os pés delicados de Aline calçaram os chinelos e caminharam até a janela, enquanto suas mãos alvas esfregavam os olhos.

Bocejou e sorriu para o seu amigo que surgia das montanhas.

O cheiro de café e pão assando no forno invadia os cômodos da singela moradia.

Hora de levantar e ir para a escola para aprender matemática.

Ela adorava os números, seus companheiros.

Fazia desenhos com eles. Colocava um em cima do outro e depois os inclinava, para a direita, para a esquerda, fazendo gangorra.

Ela os via em tudo, nas flores, folhas, nos pássaros que contava,  nas gotas de chuva. Ela contava estrelas também, quando a noite era  de céu limpo!

Um dia, quando atravessava a ponte sobre o riacho, no caminho para a escola, levou um susto!

Ouviu um barulho de asas atrás de si, virou-se, mas nada viu.

Franziu a sobrancelha, deu de ombros e  continuou andando.

De repente! Vum!  Um vento nos seus cabelos!

Eram em número de três. As fadinhas brincalhonas que a acompanhavam até passar a ponte, enquanto contavam segredos sobre a matemática divina.
- Aline, acorde! Venha tomar café!

A menina sorriu para o astro rei, foi para a cozinha, beijou sua mãe e disse:

- Hoje eu vou aprender geometria!


O meu grande amigo - Jorge da Paixão


O meu grande amigo
Jorge da Paixão

Na década de 80, me lembro  muito bem quando surgiu o celular, e eu tinha um colega de trabalho que adquiriu   um , era do tamanho de um tijolo que ele carregava e sua pasta de trabalho exibindo em todo lugar que chegava como se fosse um troféu.

O tempo passou, a tecnologia avançou, e hoje em dia ele é uma coisa corriqueira na mão de todos!  O meu para mim significa muito é meu inseparável companheiro e conselheiro dia e noite, durmo com ele ligado e carregando a noite toda.


Eu amo meu celular no fundo do meu coração por ser ele um fiel companheiro para mim assim há muitos anos... Não tenho coragem de viver sem ele.

"As ondas chegam mansas e..." - Hirtis Lazarin


"As ondas chegam mansas e..."
Hirtis Lazarin

Denise acorda assustada outra vez. Sono conturbado, pesadelo.  O travesseiro, o edredom jogados ao  chão.  Acende a luz fraca do abajur.  Vê o relógio que marca dez os minutos da terceira hora do dia.  Já virou rotina acordar àquela hora.  Olha ao seu lado.  O lugar dele está vazio.  Um nó apertado sufoca-lhe a garganta, uma mão gigante e poderosa aperta-lhe o coração.

          A madrugada está fria.  Veste o roupão vermelho.  Descalça desce as escadas.  Já na cozinha abre metade da janela.  Observa a chuva fina.  Fecha os olhos, respira profundamente, o vitrô fica embaçado.  Ouve a música suave das gotas que batem na cobertura da garagem.  Lembra-se da guerra de travesseiros, do edredom vermelho de coraçõezinhos brancos que ele achava tão infantil.  Lembra-se dele dormindo, olhos apertados, sobrancelhas cerradas, lábios carnudos oferecendo-se pra serem beijados.  Lembra-se do cheiro do seu corpo aquecido e suado.  Denise respira vagarosamente buscando esse cheiro no ar.

          Uma buzina inconveniente na rua livra-a desse torpor.  Caminha até o fogão e aquece uma caneca de leite.  Volta-se para a mesa redonda da sala, bem iluminada por lustre pendente com cinco lâmpadas.  Fotos esparramadas, algumas amassadas e outras rasgadas.  Na hora da angústia, do desespero.  Lembra-se de cada momento vivido e eternizado  no papel, hoje tão frios quanto a máquina que os registrou.

          O cheiro do leite queimado, escorrendo pelas bordas da caneca acorda Denise.  Larga a caneca vazia na pia e resmunga.  Antes de apagar a luz, olha pra cadeira vazia.  A saudade a sufoca.  É tanta que sente chover dentro dela e a chuva transborda pelos seus olhos.  A saudade revira-a por dentro e tira tudo do lugar.  Com saudade não existe nada, não há presença, cheiro, olhar, sorriso, voz.  Apenas o vazio...

          Os pés descalços sentem o gelado do piso.  Tão gelado quanto aquele espaço feito a dois, para dois.


          Denise volta à cama, beija a foto dele na tela do celular, reza baixinho.  Fecha os olhos e como já é esperado não dorme.  Amanhece.  Toma alguns medicamentos.  Apaga.  Denise só acorda quando o sol se põe.  Sai da cama sonâmbula, vestindo camisola, anda até a praia.  A lua é cheia, lumia seu caminhar.  As ondas chegam mansas e frias aos pés de Denise.  O corpo teso ergue-se como esfinge morena tendo a lua a sua frente.  Seus pensamentos estão do outro lado do oceano.  Há seis meses Paolo partiu pra Itália.  Partiu pra nunca mais voltar.

sábado, 20 de setembro de 2014

Lançamento do Livro SEMPRE 20 ANOS - Suzana da Cunha Lima



Dia 27 de setembro - às 17 horas -Clube Alto dos Pinheiros.
Estaremos lá!


AS ROSAS DE FREI HUMBERTO - M.luiza de C.Malina



AS ROSAS DE FREI HUMBERTO       
M.luiza de C.Malina

A igreja da região há muito estava sem um pároco. A chegada de Padre Humberto foi manifestada pela ardorosa população feminina com braçadas de flores.

Frei Humberto estava na média de seus viçosos 38 a 42 anos no máximo. A forte tendência em angariar fundos e fiéis para o próprio sustento da igreja, e o propósito de auxílio aos necessitados, garantiu-lhe a escolha da pacata vila.

O dia a dia era dividido com um coroinha, uma governanta e um cachorro. Ambos moravam em um anexo da casa paroquial. O frei percebe a rigidez de controle de Emengarda que extrapolava suas incumbências.

No vasto quintal, o ele resolve incluir na horta um pequeno canteiro de rosas e flores para enfeitar o altar. Tão belas se tornaram, que, as fiéis pediam uma “mudinha” da rosa.

Porém, com o passar dos meses, o padre percebe que os pés de rosa estavam murchando. Aduba sem que nada se resolva. Comentam entre as fiéis que é “olho gordo”. Até ele passa a crer na superstição. Certa manhã observa o cachorro lambendo a terra. Retira um punhado e a leva para analise numa fazenda próxima.

O agrônomo, velho experiente, chama o fazendeiro mostrando-lhe o punhado de terra dizendo em tom de deboche:

- Veja o que temos aqui. A revanche começou!

Ambos riram. O fazendeiro cumprimenta o padre com tapinhas nas costas.

- Ora, ora! Estava demorando. O aguardávamos há muito. Sabe como é, padre novo e novinho em folha. A mulherada toda se alvoroça em seus préstimos.

- Sim. Elas são muito atenciosas, principalmente Emengarda.

- Emengarrrrrda! - Diz o fazendeiro, e continua - Hahaha!  Os dois riem muito, pedem desculpas ao padre e explicam:

- Com todo respeito a sua vocação, mas o senhor precisa saber de alguns boatos que correm para o senhor poder sobreviver. Emengarrrrda é uma bruxa. Bonita, não envelhece nunca. Faz poções milagrosas para conquistar os homens e o que sobra joga nas plantas para que o pároco vá embora. Aliás, o senhor já provou o chá de calcinhas que ela faz? Deve jogar nas suas rosas...

Frei Humberto abaixa a cabeça, pede licença e volta para a Igreja. Arruma as malas.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

A Doida - Carlos Drummond de Andrade






A doida
Carlos Drummond de Andrade
(In: Contos de Aprendiz.)
A doida habitava um chalé no centro do jardim maltratado. E a rua descia para o córrego, onde os meninos costumavam banhar-se. Era só aquele chalezinho, à esquerda, entre o barranco e um chão abandonado; à direita, o muro de um grande quintal. E na rua, tornada maior pelo silêncio, o burro pastava. Rua cheia de capim, pedras soltas, num declive áspero. Onde estava o fiscal, que não mandava capiná-la?
Os três garotos desceram manhã cedo, para o banho e a pega de passarinho. Só com essa intenção. Mas era bom passar pela casa da doida e provocá-la.
As mães diziam o contrário: que era horroroso, poucos pecados seriam maiores.
Dos doidos devemos ter piedade, porque eles não gozam dos benefícios com que nós, os sãos, fomos aquinhoados.
Não explicavam bem quais fossem esses benefícios, ou explicavam demais, e restava a impressão de que eram todos privilégios de gente adulta, como fazer visitas, receber cartas, entrar para irmandade. E isso não comovia ninguém. A loucura parecia antes erro do que miséria. E os três sentiam-se inclinados a lapidar a doida, isolada e agreste no seu jardim. Como era mesmo a cara da doida, poucos poderiam dizê-lo. Não aparecia de frente e de corpo inteiro, como as outras pessoas, conversando na calma. Só o busto, recortado, numa das janelas da frente, as mãos magras, ameaçando. Os cabelos, brancos e desgrenhados. E a boca inflamada, soltando xingamentos, pragas, numa voz rouca.
Eram palavras da Bíblia misturadas a termos populares, dos quais alguns pareciam escabrosos, e todos fortíssimos na sua cólera.
Sabia-se confusamente que a doida tinha sido moça igual às outras no seu tempo remoto (contava mais de 60 anos, e loucura e idade, juntas, lhe lavravam o corpo). Corria, com variantes, a história de que fora noiva de um fazendeiro, e o casamento, uma festa estrondosa; mas na própria noite de núpcias o homem a repudiara, Deus sabe por que razão. O marido ergueu-se terrível e empurrou-a, no calor do bate-boca; ela rolou escada abaixo, foi quebrando ossos, arrebentando-se. Os dois nunca mais se viram. Já outros contavam que o pai, não o marido, a expulsara, e esclareciam que certa manhã o velho sentira um amargo diferente no café, ele que tinha dinheiro grosso e estava custando a morrer – mas nos racontos antigos abusava-se de veneno. De qualquer modo, as pessoas grandes não contavam a história direito, e os meninos deformavam o conto. Repudiada por todos, ela se fechou naquele chalé do caminho do córrego, e acabou perdendo o juízo. Perdera antes todas as relações. Ninguém tinha ânimo de visitá-la. O padeiro mal jogava o pão na caixa de madeira, à entrada, e eclipsava-se. Diziam que nessa caixa uns primos generosos mandavam pôr, à noite, provisões e roupas, embora oficialmente a ruptura com a família se mantivesse inalterável. Às vezes uma preta velha arriscava-se a entrar, com seu cachimbo e sua paciência educada no cativeiro, e lá ficava dois ou três meses, cozinhando. Por fim a doida enxotava-a. E, afinal, empregada nenhuma queria servi-la. Ir viver com a doida, pedir a bênção à doida, jantar em casa da doida, passou a ser, na cidade, expressões de castigo e símbolos de irrisão.
Vinte anos de tal existência, e a legenda está feita. Quarenta, e não há mudá-la. O sentimento de que a doida carregava uma culpa, que sua própria doidice era uma falta grave, uma coisa aberrante, instalou-se no espírito das crianças. E assim, gerações sucessivas de moleques passavam pela porta, fixavam cuidadosamente a vidraça e lascavam uma pedra. A princípio, como justa penalidade. Depois, por prazer. Finalmente, e já havia muito tempo, por hábito. Como a doida respondesse sempre furiosa, criara-se na mente infantil a idéia de um equilíbrio por compensação, que afogava o remorso.
Em vão os pais censuravam tal procedimento. Quando meninos, os pais daqueles três tinham feito o mesmo, com relação à mesma doida, ou a outras. Pessoas sensíveis lamentavam o fato, sugeriam que se desse um jeito para internar a doida. Mas como? O hospício era longe, os parentes não se interessavam. E daí – explicava-se ao forasteiro que porventura estranhasse a situação – toda cidade tem seus doidos; quase que toda família os tem. Quando se tornam ferozes, são trancados no sótão; fora disto, circulam pacificamente pelas ruas, se querem fazê-lo, ou não, se preferem ficar em casa. E doido é quem Deus quis que ficasse doido... Respeitemos sua vontade.

Não há remédio para loucura; nunca nenhum doido se curou, que a cidade soubesse; e a cidade sabe bastante, ao passo que livros mentem.
Os três verificaram que quase não dava mais gosto apedrejar a casa. As vidraças partidas não se recompunham mais. A pedra batia no caixilho ou ia aninhar-se lá dentro, para voltar com palavras iradas. Ainda haveria louça por destruir, espelho, vaso intato? Em todo caso, o mais velho comandou, e os outros obedeceram na forma do sagrado costume. Pegaram calhaus lisos, de ferro, tomaram posição. Cada um jogaria por sua vez, com intervalos para observar o resultado. O chefe reservou-se um objetivo ambicioso: a chaminé.
O projétil bateu no canudo de folha-de-flandres enegrecido – blem – e veio espatifar uma telha, com estrondo. Um bem-te-vi assustado fugiu da mangueira próxima. A doida, porém, parecia não ter percebido a agressão, a casa não reagia. Então o do meio vibrou um golpe na primeira janela. Bam! Tinha atingido uma lata, e a onda de som propagou-se lá dentro; o menino sentiu-se recompensado. Esperaram um pouco, para ouvir os gritos. As paredes descascadas, sob as trepadeiras e a hera da grade, as janelas abertas e vazias, o jardim de cravo e mato, era tudo a mesma paz.
Aí o terceiro do grupo, em seus 11 anos, sentiu-se cheio de coragem e resolveu invadir o jardim. Não só podia atirar mais de perto na outra janela, como até, praticar outras e maiores façanhas. Os companheiros, desapontados com a falta do espetáculo cotidiano, não, queriam segui-lo. E o chefe, fazendo valer sua autoridade, tinha pressa em chegar ao campo.
O garoto empurrou o portão: abriu-se. Então, não vivia trancado? ...E ninguém ainda fizera a experiência. Era o primeiro a penetrar no jardim, e pisava firme, posto que cauteloso. Os amigos chamavam-no, impacientes. Mas entrar em terreno proibido é tão excitante que o apelo perdia toda a significação. Pisar um chão pela primeira vez; e chão inimigo. Curioso como o jardim se parecia com qualquer um; apenas era mais selvagem, e o melão-de-são-caetano se enredava entre as violetas, as roseiras pediam poda, o canteiro de cravinas afogava-se em erva.
Lá estava, quentando sol, a mesma lagartixa de todos os jardins, cabecinha móbil e suspicaz. O menino pensou primeiro em matar a lagartixa e depois em atacar a janela. Chegou perto do animal, que correu. Na perseguição, foi parar rente do chalé, junto à cancelinha azul (tinha sido azul) que fechava a varanda da frente. Era um ponto que não se via da rua, coberto como estava pela massa de folha gemo A cancela apodrecera, o soalho da varanda tinha buracos, a parede, outrora pintada de rosa e azul, abria-se em reboco, e no chão uma farinha de caliça denunciava o estrago das pedras, que a louca desistira de reparar.
A lagartixa salvara-se, metida em recantos só dela sabidos, e o garoto galgou os dois degraus, empurrou cancela, entrou. Tinha a pedra na mão, mas já não era necessária; jogou-a fora.
Tudo tão fácil, que até ia perdendo o senso da precaução. Recuou um pouco e olhou para a rua: os companheiros tinham sumido. Ou estavam mesmo com muita pressa, ou queriam ver até aonde iria a coragem dele, sozinho em casa da doida.
Tomar café com a doida. Jantar em casa da doida. Mas estaria a doida?
A princípio não distinguiu bem, debruçado à janela, a matéria confusa do interior. Os olhos estavam cheios de claridade, mas afinal se acomodaram, e viu a sala, completamente vazia e esburacada, com um corredorzinho no fundo, e no fundo do corredorzinho uma caçarola no chão, e a pedra que o companheiro jogará.
Passou a outra janela e viu o mesmo abandono, a mesma nudez. Mas aquele quarto dava para outro cômodo, com a porta cerrada. Atrás da porta devia estar a doida, que inexplicavelmente não se mexia, para enfrentar o inimigo. E o menino saltou o peitoril, pisou indagador no soalho gretado, que cedia.
A porta dos fundos cedeu igualmente à pressão leve, entreabrindo-se numa faixa estreita que mal dava passagem a um corpo magro.
No outro cômodo a penumbra era mais espessa parecia muito povoada. Difícil identificar imediatamente as formas que ali se acumulavam. O tato descobriu uma coisa redonda e lisa, a curva de uma cantoneira. O fio de luz coado do jardim acusou a presença de vidros e espelhos. Seguramente cadeiras. Sobre uma mesa grande pairavam um amplo guarda-comida, uma mesinha de toalete mais algumas cadeiras empilhadas, um abajur de renda e várias caixas de papelão. Encostado à mesa, um piano também soterrado sob a pilha de embrulhos e caixas. Seguia-se um guarda-roupa de proporções majestosas, tendo ao alto dois quadros virados para a parede, um baú e mais pacotes. Junto à única janela, olhando para o morro, e tapando pela metade a cortina que a obscurecia, outro armário. Os móveis enganchavam-se uns nos outros, subiam ao teto. A casa tinha se espremido ali, fugindo à perseguição de 40 anos.
O menino foi abrindo caminho entre pernas e braços de móveis, contorna aqui, esbarra mais adiante. O quarto era pequeno e cabia tanta coisa.
Atrás da massa do piano, encurralada a um canto, estava a cama. E nela, busto soerguido, a doida esticava o rosto para a frente, na investigação do rumor insólito. Não adiantava ao menino querer fugir ou esconder-se. E ele estava determinado a conhecer tudo daquela casa. De resto, a doida não deu nenhum sinal de guerra. Apenas levantou as mãos à altura dos olhos, como para protegê-los de uma pedrada.
Ele encarava-a, com interesse. Era simplesmente uma velha, jogada num catre preto de solteiro, atrás de uma barricada de móveis. E que pequenininha! O corpo sob a coberta formava uma elevação minúscula. Miúda, escura, desse sujo que o tempo deposita na pele, manchando-a. E parecia ter medo.
Mas os dedos desceram um pouco, e os pequenos olhos amarelados encararam por sua vez o intruso com atenção voraz, desceram às suas mãos vazias, tornaram a subir ao rosto infantil.
A criança sorriu, de desaponto, sem saber o que fizesse.
Então a doida ergueu-se um pouco mais, firmando-se nos cotovelos. A boca remexeu, deixou passar um som vago e tímido.
Como a criança não se movesse, o som indistinto se esboçou outra vez. Ele teve a impressão de que não era xingamento, parecia antes um chamado. Sentiu-se atraído para a doida, e todo desejo de maltratá-la se dissipou. Era um apelo, sim, e os dedos, movendo-se canhestramente, o confirmavam.
O menino aproximou-se, e o mesmo jeito da boca insistia em soltar a mesma palavra curta, que entretanto não tomava forma. Ou seria um bater automático de queixo, produzindo um som sem qualquer significação?
Talvez pedisse água. A moringa estava no criado - mudo, entre vidros e papéis. Ele encheu o copo pela metade, estendeu-o. A doida parecia aprovar com a cabeça, e suas mãos queriam segurar sozinhas, mas foi preciso que o menino a ajudasse a beber.
Fazia tudo naturalmente, e nem se lembrava mais por que entrara ali, nem conservava qualquer espécie de aversão pela doida. A própria idéia de doida desaparecera. Havia no quarto uma velha com sede, e que talvez estivesse morrendo.
Nunca vira ninguém morrer, os pais o afastavam se havia em casa um agonizante. Mas deve ser assim que as pessoas morrem.
Um sentimento de responsabilidade apoderou-se dele. Desajeitadamente, procurou fazer com que a cabeça repousasse sobre o travesseiro. Os músculos rígidos da mulher não o ajudavam. Teve que abraçar-lhe os ombros – com repugnância – e conseguiu, afinal, deitá-la em posição suave.
Mas a boca deixava passar ainda o mesmo ruído obscuro, que fazia crescer as veias do pescoço, inutilmente. Água não podia ser, talvez remédio...
Passou-lhe um a um, diante dos olhos, os frasquinhos do criado-mudo. Sem receber qualquer sinal de aquiescência. Ficou perplexo, irresoluto. Seria caso talvez de chamar alguém, avisar o farmacêutico mais próximo, ou ir à procura do médico, que morava longe. Mas hesitava em deixar a mulher sozinha na casa aberta e exposta a pedradas. E tinha medo de que ela morresse em completo abandono, como ninguém no mundo deve morrer, e isso ele sabia que não apenas porque sua mãe o repetisse sempre, senão também porque muitas vezes, acordando no escuro, ficara gelado por não sentir o calor do corpo do irmão e seu bafo protetor.
Foi tropeçando nos móveis, arrastou com esforço o pesado armário da janela, desembaraçou a cortina, e a luz invadiu o depósito onde a mulher morria. Com o ar fino veio uma decisão.

Não deixaria a mulher para chamar ninguém. Sabia que não poderia fazer nada para ajudá-la, a não ser sentar-se à beira da cama, pegar-lhe nas mãos e esperar o que ia acontecer.

A boa dona de casa - Jorge da Paixão


A boa dona de casa
Jorge da Paixão    

Maria Helena, é uma boa esposa, mãe e dona de casa. Ela adora cozinhar!

Quando seu marido vai trabalhar e as crianças vão para o colégio, ela fica na cozinha cantando e cozinhando. Ela faz cada quitute gostoso  que seu   esposo Raul só vai se alimentar corretamente quando chega em casa a noite, e depois se deita no sofá para assistir televisão e termina tirando uma soneca  enquanto ela lava os pratos recitando poesias, as crianças brincando e pulando, o cachorro Totó latindo e a gatinha Mimi miando....

CONFUSÃO NA COZINHA! - Dinah Ribeiro de Amorim


CONFUSÃO NA COZINHA!
Dinah Ribeiro de Amorim

  Que bagunça aconteceu quando peguei uma empregada nova! Seu nome, Quitéria. Queria o emprego de cozinheira a todo custo e só trouxe problemas!

  Apresentada por uma amiga, ”sem referências,” aceitei-a logo, pois teria visitas inesperadas para o almoço. Tios de meu marido, vindos do interior.

  Com consulta marcada bem naquela manhã, perguntei se sabia fazer uma macarronada, coisa simples, com um molho de tomate caseiro e almôndegas de carne, para incrementar um pouco. Se desse tempo, fazer também uma sobremesa, um pudim de leite condensado, rápido, para adoçar, no final. Respondeu-me que sabia tudo. Poderia sair descansada. Aliviada com sua resposta, achando que tinha sido um presente dos céus a sua vinda, saí apressada, sem lhe dar muitas explicações.

  Na volta, mais calma, comecei a pensar no almoço e acelerei o carro pensando em como fora rápida em aceitar Quitéria, sem nenhuma referência! Como estaria se saindo sozinha, numa casa estranha! Fora meio inexperiente. Recriminei-me por isso. Estava contando com a sorte.

  Surpresa enorme ao voltar! Cozinha toda desarrumada, pratos quebrados pelo chão, minha batedeira nova em frangalhos, tentara bater o pudim e a deixara cair. Com uma mão mexia na panela do molho e com a outra, o pudim. Descabelada, parecendo haver saído de uma briga, fios  saiam fora da touca que lhe dera; avental, chão e fogão respingados de  tomate que não chegaram ao teto porque era muito alto. Minha cozinha, tão branca e limpa! Sempre fora o meu orgulho. Que horror! Como servir almoço nela!

  Quitéria, afogueada, apavorou-se ao ver-me!

_ Calma, Dona, eu  já arrumo e apronto tudo! Não fique nervosa.

_ E a carne? - perguntei eu, não sabendo bem o que falar, de susto.

_ Chi! Esqueci-me de tirar da geladeira. Espera que já descongelo -  responde ela.

  Não dava mais tempo. Minha única saída foi convidar os tios para comerem num restaurante perto, dando mil desculpas, pois havia tido médico e, dispensar Quitéria, que, chorando, não sabia por que ninguém queria ficar com ela!

  Tive dó, mas para doméstica, não servia não. Quem sabe como varredora de ruas ou catadora de papéis encontraria mais facilidade.

  Que decepção!


terça-feira, 16 de setembro de 2014

Entrei numa fria! - Hirtis Lazarin



Entrei numa fria!
Hirtis Lazarin

Minha sobrinha Marina de quinze anos veio de uma cidadezinha de Minas pra morar comigo.

          Seus pais, preocupados com os estudos da filha, acharam por bem trazê-la à São Paulo para cursar o Ensino Médio e posteriormente a Faculdade.

          Eu a conhecia pouco. A última vez que estive com ela, tinha apenas cinco anos e depois disso, nunca mais... Meu irmão fora transferido  para Minas.  Ele dirigiria a filial de multinacional.  E por lá criou raízes.

          Não hesitei em convidá-la pra morar comigo.  Meu apartamento é grande, moro sozinha.  Poderíamos ser grandes companheiras.

          Organizei o quarto para receber Marina com o carinho e capricho de uma mãe.  Instalei computador, t.v. de tela fina, cortinas finas e esvoaçantes criando um ambiente leve e juvenil.  Sabia que a menina era apaixonada por ursos.  Então, sobre a sua cama, coberta com colcha de tecido igual ao da cortina, uma família de ursinhos a receberia  com largo sorriso de boas vindas.

          Marina se mostrou  carinhosa e obediente.  Rapidinho se adaptou à rotina da casa.  Levantávamos cedinho.  Eu pro trabalho e ela pro colégio.  Matriculei-a numa boa escola,  próxima para  que ela não precisasse  de condução.  Ao término das aulas, chegando em casa, tinha a Marlene a sua disposição até às dezoito horas.  Lembrando, Marlene  me presta serviço há mais de vinte anos.

           Meio ano já havia passado.  Meu Deus, o tempo corre.  Os ponteiros do relógio até parecem estar numa competição de velocidade.  Num repente, as mudas viram árvores gigantes, as sementes viram flores que viram frutos;, os ovinhos pássaros,  o bebê indefeso  criança sapeca,  e Marina virou uma adolescente rebelde.

          Agora, seu quarto estava sempre em desordem: roupas usadas e sapatos espalhados pelo chão, lixeira abarrotada de papéis, frascos vazios de iogurte empilhados, atraindo insetos  e o som sempre ligado em volume assustador.

          O  humor da garota mudava da água pro vinho em instantes: do irritável pra pulos de alegria.  Eu tentava, mas não conseguia entender.

          Sei que a adolescência é uma fase conturbada.  Li livros e pesquisei  na internet  buscando orientação.

          Quantas vezes sentei-me ao seu lado pra uma conversa de amigas.  Cheguei a contar-lhe segredos pra que ela me contasse os seus, sem querer que se aprofundasse nos detalhes  Sei que o adolescente precisa de privacidade pra que se torne um adulto responsável e independente.

          Muitas vezes eu triste, cansada mostrei-me serena e feliz.  A felicidade é contagiante.

          Nos finais de semana, levei-a pra ambientes de lazer e cultura, sempre abrindo espaço pras suas sugestões.

          Entrei em contato com seus pais diversas vezes.  Eu precisava de ajuda.  Eles nunca apareceram.

          A coisa desandou mesmo quando Marina conheceu Pedro Henrique e recebeu do Cupido flechada no ponto "G" do coração.  Paixão  alucinante.  Faltava às aulas e seu rendimento escolar desmoronou, trancava-se no quarto por horas e ignorava-me, não desgrudava do celular. Saía sem dar satisfações, não cumpria mais os limites de horário.

          Até que numa tarde, ao chegar do trabalho, encontrei acesas todas as lâmpadas da casa,  o quarto de Marina aberto, o chão coberto de páginas desfolhadas de todos os seus livros,  folhas de caderno rasgadas.  Marina inerte caída sobre a cama, uma garrafa de bebida alcoólica quase vazia entre seus dedos.

          Entrei em pânico.  Não tive coragem de tocar aquele corpo.  Chamei a ambulância.  No hospital, constatou-se coma alcoólica.

          Pra mim bastava.  Liguei aos pais e exigi que viessem imediatamente direto ao hospital.  Assim que chegaram no dia seguinte, sem dizer uma palavra sequer, encaminhei-os aos médicos responsáveis.

          Eu só queria sumir dali.  Corri pra casa.  Arrumei malas,  Escrevi recado pra Marlene.  Sabe pernas, pra quê as quero?


          Eu quero é viajar pro Vietnã...

Comer, beber, amar e comprar - Jany Patricio




Comer, beber, amar e comprar           
Jany Patricio                    

        
          Naquela manhã Gisele acordou com a claridade que atravessava as cortinas. Bocejou. Virou de lado para ver as horas. Pulou da cama. Estava atrasada. Tropeçou nos sapatos, malas e mochilas espalhados pelo chão.  
       
          Jogou uma água no rosto para acordar. Fez um café forte que engoliu com torradas passadas na manteiga.

          Com rapidez aplicou o corretivo e base, para disfarçar as olheiras. Batom, rímel e pronto!

          Já estava ela correndo de novo, depois da emocionante viagem.

          Chegara tarde da noite com o coração revirado pelas emoções vividas ao lado de Paul, na bela e chuvosa Londres.

          Mal conseguira dormir, lembrando-se desde o primeiro momento em que o conheceu na trilha da Cachoeira do Sossego, na Chapada Diamantina, Bahia, que por sinal nada tinha de sossegada. Ele a ajudou a transpor as enormes pedras daquele leito de rio que ao secar transformou-se em trilha. Conversaram por todo o caminho. Ficaram juntos até o final da viagem e trocaram endereço eletrônico.

           Conversaram durante um ano pela Internet e enfim ela realizou seu sonho e conhecer Londres, e ainda mais tendo Paul como guia.

Tudo muito lindo, até que numa conversa ele revelou ser casado. Aquelas histórias, o casamento não ia bem, mas ele não se separaria por causa dos filhos.

            Foi como um balde d'água nos sonhos de Gisele, que já se via morando em Londres, tendo lindos filhos com o homem dos seus sonhos. Doce ilusão. Mas, nem por isso a cidade perdeu seu encanto.

            E para compensar, quando passou por Paris, se jogou nas compras. Casacos, sapatos, bolsas, roupas, perfumes. Teve que pagar pelo excesso de bagagem.

            Semana arrastada, mas enfim chegou a sexta-feira. Saiu para um happy hour com amigas do trabalho. Como a sexta-feira chama a cerveja, ela bebeu todas. O Big-Bem, Paul, o Palácio de Buckingham, rodavam em sua cabeça. Nunca havia tomado um porre assim.

            Acordou com dor de cabeça. Sentiu um cheiro familiar. Que cheiro bom! Olhou em volta. Reconheceu seu antigo quarto.


            Recebeu um carinhoso abraço materno, e após delicioso almoço  permitiu-se  lambuzar com calda de chocolate!

A hóspede - Maria Luiza C. Malina


A HÓSPEDE           
M.Luiza de C.Malina

Olhar faiscantemente rápido. Cabelos negros lisos, uma verdadeira cortina que encobre levemente o rosto. Esvoaça como a mais leve seda, saboreando o vento.

Tudo isto sem falar do monumento escultural, vista os olhos masculinos, levando os seus cordões espermáticos à loucura!

- Uma índia em sua casa? Era a observação de amigos estupefatos pela beleza do “de repente”.

Nossa! Mais explicações.

A verdade é que ela realmente marcava presença pela maneira exótica de ser.  Roupas nada convencionais. Sem tanga, é claro – mas, pouco se importava com o que é “o belo” dentro de nossa sociedade cheia de grifes.

Sem qualquer “rasteirinha”, ôps, que até mesmo o termo tornou-se uma grife, então digo: - uma sandaliazinha - seus pés deslizam macios pelo assoalho, como a não tocá-lo.

Realmente, um vislumbre aos olhos dos desavisados.


O incômodo chegou. A insistente e numerosa visita dos amigos da onça. A confusão ao atender ao telefone,  e o som da  campainha que não parava de tocar para ela.

Verdades duras, mentiras confortáveis - Hirtis Lazarin




"VERDADES DURAS
                                                                           MENTIRAS CONFORTÁVEIS"
Hirtis Lazarin

          Arthurzinho nasceu com o bumbum virado pra lua. Teve pressa pra chegar a esse mundo de Deus e fazer parte da tradicional e rica família "Alves Guimarães".  Nasceu de sete meses.  Foi difícil pra Olívia e Afonso deixarem a maternidade sem o menino nos braços.  Dois meses se passaram até que ele recebeu alta rechonchudo e com os pulmões a todo vapor.

          Casados há mais de dez anos, Olívia só conseguiu engravidar após vários tratamentos e inseminação artificial.

          O menino crescia cercado de sonhos e fantasia.  O Papai Noel e o Coelhinho da Páscoa já tinham sido descartados e ficado pra trás, mas Arthur tinha em seu poder uma varinha mágica.  Era só mencionar um objeto de  desejo tão logo ele se materializava aos seus pés.

          Há nesta terra pessoas que parecem talhadas pra exercer liderança.  O avô de Arthur nasceu líder e essa capacidade associada a sua dedicação infatigável fizeram-no dono de um império.  Um  homem forte e respeitável no mundo dos negócios.

          Mas a vida é imprevisível e nos reserva um pouco de tudo, até emboscadas.  Sr. Walter, numa reunião com acionistas, enfartou.  Foi fulminante.  Nem conseguiu chegar ao hospital.

          Assim, de um momento pra outro, Afonso, único filho homem, assumiu o comando da Empresa.  E por mais que se esforçasse não tinha o envolvimento e a liderança de seu pai. 

          A má administração da Empresa associada à crise econômica do país provocaram, em pouco tempo, queda vertiginosa no valor das ações.  A falência foi decretada.

          Nessa época Arthur já contava com seus quinze anos.  Em casa os pais escondiam a real situação financeira e tudo continuava como era antes.  Não houve corte nas despesas e nem mudanças na vida do rapaz.  "Nosso filho não suportaria alteração brusca em seu estilo de vida.  Como transferi-lo do colégio, onde estuda desde o infantil?  Como separá-lo de seus  amigos?"  A verdade dura era sempre substituída por mentiras confortáveis.  E as dívidas iam se acumulando assustadoramente.

          Afonso até conseguiu um novo emprego, mas começar do zero exige coragem e perseverança.  O casal unido tinha que entender que aquele ciclo da vida terminara.  Novos horizontes tinham que ser buscados e que a palavra-chave tinha de  ser determinação.

          O momento crucial chegou: a casa grande e confortável num bairro luxuoso e os carros foram vendidos;  todos os serviçais dispensados.  Um apartamento modesto foi alugado num bairro não menos modesto.  Tudo isso fora revelado ao rapazinho de uma só vez.  Se a verdade tivesse sido administrada em doses homeopáticas acrescidas de gotas de amor e tato, talvez o estrago fosse menor.  Mas Olívia e Afonso se acovardaram diante do impasse.

          Para Arthur foi o desmoronamento do seu mundo em poucos segundos. Era como se uma bomba tivesse explodido e a família se visse cercada por escombros intransponíveis. Ele se isolou de tudo e de todos. Passava o dia trancado em seu quarto ou desaparecia o dia todo.  A cada dia, Arthur murchava um pouquinho mais.   E as coisas só foram piorando...

          Hoje faz seis meses que o rapaz está internado numa clínica de recuperação para dependentes químicos.